Shigeru Egami nasceu em 1912 na Prefeitura
de Fukuoka, numa família ligada ao comércio e à construção civil.
Aos 13 anos iniciou-se na prática do Judo e ao longo da sua juventude
praticou também Kendo. Em 1924, nos tempos de liceu, observou
técnicas de Okinawa-Te pela primeira vez, executadas por um contramestre
de construção civil originário de Okinawa. Em 1931, ingressou
num curso comercial na Universidade de Waseda, e treinou durante
algum tempo Aikido. Acaba por travar conhecimento com Gichin Funakoshi
tornando-se o seu primeiro discípulo nessa universidade e ajudando-o
a fundar o Clube de Karate local. Nesse mesmo ano, um colega seu
da universidade começou a praticar no clube, seu nome era Genshin
Hironishi e a amizade aí firmada manteu-se por toda a vida de
ambos. No início da década de 30, empenha-se na divulgação do
Karate pelo Japão, através de demonstrações lideradas por Takeshi
Shimoda, e após a morte deste, por Yoshitaka Funakoshi. Em meados
da década de 30, conclui os seus estudos na Universidade de Waseda
obtendo bacharelado em Comércio.
Apesar de aparentar uma forma física excepcional, Egami, tal como
Yoshitaka Funakoshi, tinha já graves problemas de saúde; na inspeção
militar foi dispensado por apresentar problemas pulmonares e acabou
mesmo por contrair tuberculose.
Com a morte do seu irmão mais velho, vê-se obrigado a partir para
Kyushu para gerir, durante algum tempo, a firma familiar de construção
civil. Cedo, acaba porém por deixar essa ocupação, visto não se
adaptar ao tipo de negócios envolvidos. De regresso a Tóquio,
empenha-se, juntamente com o filho mais velho de Mestre Funakoshi,
no desenvolvimento do Karate Do. É introduzida a prática do Jyu
Kumite (kumite livre), novas posições de base, como fudo-dachi,
são criadas e inicia-se a prática de técnicas de pernas inéditas,
tais como Yoko Geri (Kekomi e Keage) e várias formas de Mawashi-Geri,
Fumikomi e Ushiro-Geri, adotam-se também, novas posições de base
mais baixas que as tradicionais.
Em 1935, Egami adere ao comitê criado por Kichinosuke Saigo, importante
figura política da época e um dos mais antigos alunos de Gichin
Funakoshi, que se propõe, como primeira tarefa, a construção do
primeiro dojo de Karate no Japão. Esse comitê constitui o embrião
da Shotokai (Associação Funakoshi).
Assumindo-se sempre como um dos mais ativos discípulos de Funakoshi,
Egami passa a ensinar Karate nas Universidades de Gakushuin, Toho
e Chuo, sendo o mais jovem instrutor a integrar o Comitê de Avaliação
criado por Mestre Funakoshi.
Em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial, Egami assiste,
em menos de um ano, à destruição da casa e do belo dojo do seu
velho Mestre e à morte do seu grande amigo Yoshitaka Funakoshi.
Após a morte de Yoshitaka Funakoshi, Egami empenha-se, de forma
mais personalizada, porém solitária, na busca do caminho que o
seu Mestre continuamente apontava: transformar a arte de Okinawa
numa arte do Budo, partindo do Karate para chegar ao Karate Do.
Nessa pesquisa oferece o seu abdômen nu aos mais diversos tipos
de ataques de punho e acaba por concluir que os ataques dos karatecas
mais antigos carecem de eficácia. A introspecção de Egami vai,
porém, em sentido oposto ao da corrente iniciada em 1949, com
a formação da JKA (Japan Karate Association); de fato, embora
fundada e supervisionada por homens da corrente mais tradicional
- Hironishi, Saigo e Obata - a organização cedo começou a reger
por objetivos comerciais, direcionando-se para o grande público,
cada vez mais interessado nas práticas e métodos desportivos ocidentais.
Em conseqüência, os "tradicionalistas" decidem afastar-se da organização,
deixando o caminho aberto para homens como Masatoshi Nakayama
e Hidetaka Nishiyama. A popularidade deste movimento, que inicialmente
agradara a Gichin Funakoshi, fá-lo agora preocupar-se, vendo o
risco da desvirtuacão dos valores essenciais do Karate-Do. Egami
sente-se, assim, mais incentivado, quer pelo seu Mestre, quer
pelos discípulos mais antigos, a prosseguir com perseverança no
sentido do Budo.
Em 1953, Egami começa finalmente, a reencontrar
esse caminho: ao receber um ataque do jovem Tadao Okuyama -
um karateca dissidente da universidade de Waseda - verifica
que o golpe é extraordinariamente mais eficaz que qualquer outro
ataque que até então recebera. Decide, pois, com pouco mais
de 40 anos, tomar a audaciosa decisão de mudar radicalmente
os conceitos e as formas de execução convencionais, passa a
preconizar o uso de técnicas descontraídas, evitando toda a
força desnecessária.
Reencontra-se então com os métodos de Shimoda, Yoshitaka Funakoshi
e do próprio Gichin Funakoshi cuja forma de golpear, aparentemente
leve e descontraída, surtia um tremendo efeito. Ao mesmo tempo,
através de Okuyama, toma contato com o Shinwa Taido de Mestre
Hoken Inoue e começa a interessar-se por temas como a energia
vital e sua circulação pelo corpo humano. Em 1955, porém, quando
está em plena fase de construção do seu novo método de treino,
vê-se forçado, a submeter-se à duas intervenções cirúrgicas
no estômago, no espaço de um ano, que o deixam extremamente
debilitado e quase impossibilitado de treinar. As dificuldades
financeiras decorrentes da hospitalização e a impossibilidade
de trabalhar acabam por ser superadas através da preciosa ajuda
de amigos como Hironishi, Okuyama e Yanagisawa. Em 1957, morre
o seu grande Mestre e mentor, Gichin Funakoshi. As exéquias
são entregues pela família do Mestre Ghichin Funakoshi à direção
da Shotokai (Associação Funakoshi) em geral e à Shigeru Egami
em particular. A JKA revolta-se contra essa decisão e, a despeito
dos pedidos de Egami e Hironishi, recusa-se a participar do
funeral do Mestre.
A partir da morte de Gichin Funakoshi, Shigeru Egami passa a
assumir a liderança efetiva da Associação Funakoshi - Shotokai
- tornando-se o Instrutor Chefe do Shotokan. Em 1963, talvez
pela superação da sua débil saúde, acaba por descobrir técnicas
que ultrapassam a mera execução física, como o toate - ataque
à distância, sem contato físico - abrindo um novo caminho para
os seus discípulos. Em 1967, quando orienta um estágio de verão
na Universidade de Chuo acabar, porém, por quase sucumbir a
um ataque cardíaco, sendo salvo da morte, in extremis, por uma
reanimação efetuada pelo seu discípulo Hiroyuki Aoki. A sua
força física fica literalmente reduzida à de um recém nascido
e Egami, vê-se, novamente, confinado a um leito de hospital,
por um longo período. Em lugar de o destruir, esta experiência
dá-lhe contudo, uma nova visão. A agonia da morte física durante
vários minutos, desperta-lhe um novo significado para a vida
e para a prática do Karate-Do. O destino concedera-lhe ainda
cerca de duas décadas de vida e ele decide aproveitá-las totalmente
para incentivar outros karatecas a prosseguirem no caminho que
fora traçado pelo seu Mestre, inicialmente através da escrita,
depois através da sua presença e alguns anos depois através
de uma prática física adaptada à sua condição e idade, consegue
transmitir as suas idéias e métodos a homens como:
- Mitsusuke Harada, que privou como seu aluno particular entre
1954 e 1955 e que acabaria por introduzir a corrente Shotokai
na América do Sul e no Norte da Europa;
- Tetsuji Murakami que a partir de um encontro de poucos meses
com Egami e seus discípulos, em 1967, acabaria por se tornar
um dos seus mais fiéis seguidores, torna-se o principal impulsionador
do Shotokai no Centro e Sul da Europa durante os vinte anos
seguintes;
- Hiroyuki Aoki que acabaria por realiizar em co-autoria com
Egami um importante trabalho de sistematização em livro dos
Katas praticados na escola Shotokai – Karate-Do for the Specialist
- que lideraria um movimento evolutivo de integração do Karate-Do
com outras artes marciais - Sogobudo - e que mais tarde viria
a criar uma nova Arte Marcial - o Shintaido;
- Tomojo Miyamoto que viria a assessorar o Mestre nos últimos
anos de vida, personalizando as demonstrações técnicas nas suas
viagens à Europa em 1976 e 1978 e também no seu derradeiro livro
- The Way of Karate, Beyond Technique;
- E muitos outros seguidores como Masaru Mizushima, Koibuchi
e Atsuo Hiruma que iriam realizar um importante trabalho de
expansão da prática do Karate-Do Shotokai no Japão e além fronteiras.
Em 10 de Outubro de 1980, durante um estágio para instrutores,
o estado de Egami agrava-se e ele é hospitalizado. Dois dias
depois sofre uma hemorragia cerebral. Não voltará a retomar
a consciência. A 8 de Janeiro de 1981, morre aquele que foi
considerado por muitos mestres da atualidade como "o seguidor
de Mestre Funakoshi no mundo do Karate-Do".
Para a posteridade ficam, como um desafio a quem o ousar seguir
palavras como:
"No mundo desportivo a competição é técnica,
pode-se progredir através da luta entre pessoas. Mas que lugar
ocupa ela na vida humana ? Conceber o Karate como Budo volta
a situá-lo entre a vida e a morte. Não se trata apenas de uma
competição técnica. Trata-se da maneira de se comportar e de
enfrentar o adversário em situações em que a vida entra em jogo."
"Devemos construir a via do karate, a via da verdade, a via
que nos leva aos mais altos cumes. Para tal é preciso retornar
ao ponto de partida, ao ensinamento de Mestre Funakoshi. Interrogar-se
sobre o que o passado nos transmitiu, estudar nas outras disciplinas
do Budo, procurar uma técnica superior e estabelecer o karate
como uma arte marcial de valor, procurar, enfim, o aperfeiçoamento
da via do karate, é esse o nosso dever face ao Mestre. A nossa
vocação é de fazer avançar um passo, ou mesmo um meio-passo,
o trabalho que nos deixou Mestre Funakoshi...
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