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S E N S E I   P A U L O   I S A M U   Y A M A G U T I



Paulo Isamu Yamaguti
6° Dan - Estilo Shotokan
Nascido a 03 de Novembro de 1946



" Nasci em Sertãozinho, interior do Estado de São Paulo, filho de lavradores, penúltimo de uma família de onze irmãos, sendo oito mulheres e três irmãos. Fui criado no campo e tinha como principal divertimento durante a infância a pescaria e caça com 'estilingue'.

Vim para a capital, São Paulo, em meados de 1954. Morei durante um ano na casa de uma família japonesa, onde meus pais e irmãos, na época cinco solteiros, começavam a aprender a profissão de tintureiro. Com doze anos de idade já ajudava nos trabalhos na tinturaria.

Meu pai era judoca e jogador de Baseball no Japão. Quando ele encontrava com amigos ficavam bebendo, e começavam a relembrar das brigas e façanhas na época da 2ª Guerra.

Resolvi então praticar Judô. Meu irmão mais velho entrou primeiro na academia, mas meu pai não sabia. Resolvemos não contar nada, costuramos nós mesmos os nossos Judo-gi com pano de saca de açúcar. Nosso sensei se chama Mario Takahashi, até hoje, às vezes, eu o encontro. Só contamos a nosso pai quando ganhamos uma medalha, eu de 2º lugar e meu irmão de 1º lugar, num campeonato amistoso. Lembro-me que meu pai ficou zangado mas muito orgulhoso, e começou a contar para seus amigos. Continuei a praticar Judô, onde fiz muitas e ótimas amizades, como Jorge Fukui, Kobayashi, Adhemar Addai, Jorge Watanabe e outros.

Em 1966, nós, todos faixas pretas, éramos inseparáveis e frequentávamos todos os bailes possíveis. Os bailes normalmente terminavam em briga entre gangues do bairro.

Na ocasião, fomos convidados pelo irmão do Jorge Watanabe a participar de um pic-nic, em Salto de Itu; fomos numa turma, num ônibus fretado, e conheci então a pessoa que mudou minha vida e meu destino. Fui apresentado ao Sensei Kunitsuna Matsuda, 5º Dan de Karatê Shotokan. Senti por ele uma afinidade e uma admiração incrível. Sensei Matsuda, como o chamávamos, era uma pessoa impressionante, não mais que 1,65m de altura, olhar às vezes carinhoso e sorridente, mas às vezes fulminante, frio e até ameaçador. Conversei com Adhemar, meu amigo, e resolvemos pedir para que nos ensinasse Karatê. Na segunda-feira, uma hora antes do treino já estávamos na porta da academia, na rua Carneiro da Cunha.
Sensei Matsuda nos aceitou então como alunos. Como ainda praticávamos Judô, eu na Vila Mariana, na Associação "Kokussuikan" e Adhemar na Academia "Takahashi" no Jabaquara, começamos a treinar Karatê terça, quinta e sábado.

A duração do treino era de duas horas, mas sempre acabava com 3 horas, mais ou menos. O treinamento era tão forte e puxado que muita gente fazia matrícula, assistia e não voltava. Às vezes fazia uma aula e desistia. Meu irmão mais novo, o Mario, treinou durante três meses, desmaiou durante uma aula e desistiu. O motivo foi um Gyaku-zuki do sensei. Fiquei um ano na faixa branca, na época não existiam faixas intermediárias, eram branca, marrom e preta.

Sensei gostava tanto de mim que me apresentava aos amigos como seu irmãozinho. Eu ficava muito orgulhoso. Após um ano, Adhemar e eu fomos promovidos à faixa marrom e fomos comemorar na Liberdade. Duas horas da manhã estávamos fazendo Jyu-Kumitê na Rua São Joaquim.

Mais um ano na faixa marrom e fomos promovidos a faixa preta, ganhei na ocasião a faixa preta que o Sensei usava, e a guardo até hoje com muito carinho e orgulho.

Em 1969, Sensei recebeu uma carta do Japão, do pai dele, pedindo para retornar para resolver um problema particular. Então ele fez uma reunião, deixou comigo as chaves do Dojô, e me deixou como seu substituto, prometendo voltar dentro de um ano.

Continuamos treinando muito, toda a turma, sempre lembrando dos ensinamentos do Sensei. Passou um ano, chegou uma carta do Japão; nela Sensei em poucas palavras nos dizia para treinar firme, e que ele teria que ficar mais algum tempo no Japão. Passaram-se mais alguns meses, chegou nova carta, mas agora assinado pelo seu pai, comunicando o falecimento do Sensei Matsuda. Segundo o mesmo, foi um acidente automobilístico. Ficamos muito chocados, eu pessoalmente não conseguia mais treinar nem palavra.

Um mês após, nos reunimos e resolvemos fechar a academia pois, na nossa cabeça, treinávamos apenas esperando o retorno do Sensei, então, com a certeza de que ele não mais voltaria, perdeu-se o nosso espírito. Talvez este tenha sido um erro, mas éramos jovens e apaixonados pelo nosso mestre, e não seria possível continuar treinando sabendo que o tínhamos perdido.

Fiquei um ano sem treinar nada e fiz matrícula numa academia de capoeira. Assisti a aula e nunca mais voltei. Na ocasião arranjei emprego no parque Anhembi, na Alcântara Machado Feiras e Congressos. No preenchimento da ficha, tinha um item onde seria esporte que pratica, então coloquei Karatê, embora na época não fosse considerado esporte.

Depois de alguns meses, fui chamado na sala do Diretor, Sr. Theodoro, que quis saber mais sobre Karatê. E após algumas explicações, ele se propôs a abrir uma academia dentro do Parque Anhembi, para que desse aulas de Karatê para o grupo de segurança da empresa. O sr. Theodoro foi o primeiro a se inscrever, seguido de seu vice-diretor e todo o pessoal da segurança e portaria. Na época eu era muito exigente. Na aula não permitia conversar, não era permitido descansar, nem parar na aula se ainda estivesse de pé. Então, analisando bem, resolvi que uma academia dentro da empresa, onde diretores e chefes seriam tratados com mesmo rigor que os subalternos, porteiros etc., não deixaria à vontade, principalmente o meu diretor, pois ele teria que se submeter a mim frente aos funcionários.

Consegui então sub-alugar um horário na academia de Judô na Rua Salete, Santana, do Sensei Akira. As aulas eram de terça, quinta e sábado com duração de duas horas por dia. O grupo era fechado e nao cobrava para dar aula. No final do mês, fazíamos um rateio para pagar o aluguel, do qual eu era isento.

Com o passar do tempo houve muita desistência, ou por afastamento do funcionário ou por outros motivos, e no entanto, vinham sempre pessoas assistir e querendo entrar no grupo, mas não aceitávamos. Começamos com mais ou menos vinte e cinco pessoas, mas com o tempo, reduziu-se a dez pessoas. Então resolvemos aceitar as matrículas, pois ajudava a pagar o aluguel. Com o passar dos anos ficaram poucos funcionários da empresa, e formamos um grupo já independente do Anhembi.

Fui então procurar o Sensei Tomeji Ito, apresentado pelo Sensei Fumio Issa; pedi ao Sensei Ito que me aceitasse como seu aluno pois necessitava continuar treinando para poder dar aula. Sensei Ito me aceitou tão bem que até hoje ele é meu sensei.
Até então, todos sem ofensas me chamavam de Paulinho, que era como eu era conhecido no Parque Anhembi. Durante uma aula, numa determinada ocasião, algo me pareceu estranho, diferente, pois ninguém tinha se dirigido a mim, nem como Paulinho ou Paulo. No final da aula, fizemos Mokussô como sempre. Aí, um aluno pediu a palavra e disse:
"Eu, Wagner, em nome de todos os meus colegas, resolvemos a partir de hoje, que todos devem chamar o senhor de 'Sensei', pois reconhecemos que o senhor é nosso sensei e não devemos chamá-lo de Paulinho, mas de Sensei Paulo."
Fiquei muito emocionado, mas durante algum tempo ainda, alguns às vezes me chamavam de Paulinho e depois se corrigiam, e era até engraçado.

Foi então que resolvemos fundar realmente a Associação Sho-Ku-Kan de Karatê-Dô Santana. O nome Sho-Ku-Kan herdei do meu Sensei Matsuda. Só alguns anos depois nos mudamos para a Rua Salete, Nº 121. Hoje, fazem 25 anos que estou aqui na Rua Salete, com mais ou menos 90 alunos, todos maravilhosos, muita gente forte e muita gente começando, mas com grande futuro.

Hoje praticam na Sho-Ku-Kan pessoas talvez desconhecidas, por não serem atletas de competição, mas verdadeiros karatecas praticantes da arte, como Daniel Yamaguti, Marcos Yamaguti, Daniel Saito, Estela Rosa Federman, Renato Bispo Cariranha, Edson Carneiro, Carlos Ferrari, Alfredo Yuki, Oswaldo Aranha entre outros."

escrita por PAULO ISAMU YAMAGUTI